A totalidade como processualidade contínua
Em suas leituras de Hegel, Adorno critica, principalmente, três figuras da posição dos momentos conciliadores da Ideia, a saber: o Estado, o Espírito do mundo como vetor da racionalidade do processo histórico e a identidade entre sujeito e objeto no interior do absoluto. Estas são três figuras da totalidade que não poderão mais ser postas. São a elas que Adorno alude quando afirma: “nenhuma das reconciliações sustentadas pelo idealismo absoluto, desde a reconciliação lógica à histórico-política, se mostrou válida”17. O que não significa em absoluto que toda experiência da totalidade estaria interditada ao pensamento ou estaria em operação apenas como referência negativa de uma ilusão que deveria ser, a todo momento, denunciada por ser o desdobramento constante da falsa universalidade do Capital e da generalização da forma-equivalente própria à lógica da mercadoria. De fato, a totalidade realizada na vida social é a exposição da inverdade do que o pensamento procura assegurar no nível especulativo, ou seja: “a verdade e inverdade no nível especulativo apresenta a inversão da inverdade e da verdade no nível histórico-real”18. Mas, da mesma maneira como Adorno falará de uma “síntese não-violenta” ele apresentará, em momentos importantes de sua obra, modelos de uma totalidade reconciliada. A boa questão consiste em se perguntar onde estão tais modelos e porque eles só podem funcionar, atualmente, em economia restrita, ou seja, em esferas específicas da vida social.
Todos conhecem a afirmação canônica de Adorno: “O todo é o não-verdadeiro”. Mas a análise detalhada da maneira com que Adorno compreende o problema da totalidade em Hegel demonstra um julgamento mais complexo. Pois ele sabe que a negação simples da experiência da totalidade leva, necessariamente, à fascinação positivista pela pretensa imediaticidade da facticidade e do meramente dado. Tal negação simples da totalidade é a senha para a validação de uma ciência que apenas constata, ordena e que, por se aferrar à afirmação da existência desconexa, perde a força para levar a cabo toda crítica à realidade reificada. Isto faz com que Adorno procure, em Hegel, o modelo de crítica a tal tentação positivista, e ele o encontrará exatamente no conceito de totalidade. Para tanto, Adorno precisa lembrar, sobre Hegel:
Assim como as partes não são tomadas de maneira autônoma contra o todo, que é o elemento delas, o crítico dos românticos sabe também que o todo apenas se realiza por meio das partes, apenas por meio da separação, da alienação, da reflexão, em suma, por meio de tudo o que é anátema para a teoria da Gestalt19.
Ou seja, Adorno não defende a idéia corrente de que a totalidade em Hegel seria uma espécie de estrutura prévia à experiência da consciência, sempre presente e pronta para ser desvelada ao final por um processo que já estaria determinado desde sempre e que, por isto, não seria processo algum. O que nos daria uma totalidade como movimento sem acontecimento. Exemplo paradigmático de tal interpretação pode ser encontrada na crítica heideggeriana a Hegel20. Ao contrário, Adorno insiste que a totalidade em Hegel deve ser inicialmente vista como a quintessência dos momentos parciais que apontam para além de si mesmos. É isto que lhe permite afirmar que, no caso da totalidade hegeliana: “o nexo [entre os elementos] não é aquele da passagem contínua, mas da mudança brusca, o processo não ocorre na aproximação dos momentos, mas propriamente por meio da ruptura”21. Esta é outra maneira de dizer que a totalidade não deve ser compreendida como determinação normativa capaz de definir, por si só, o sentido daquilo que ela subsume, mas como a força de descentramento da identidade autárquica dos particulares. Descentramento sentido pelos particulares como ruptura e mudança brusca. Isto leva Adorno a afirmar que o sistema hegeliano não quer ser um esquema que tudo engloba, mas o centro de força latente que atua nos momentos singulares, impulsionando tais momentos com a abertura da transcendência.
Desta forma, Adorno deve reconhecer, nos melhores momentos de seus textos, que em Hegel a totalidade não pode ser vista como negação simples do particular, como subsunção completa das situações particulares a uma determinação estrutural genérica. Ela será a consequência necessária da compreensão do particular ser sempre mais do que si mesmo, dele nunca estar completamente realizado. Na verdade, ela aparecerá como a condição para que a força que transcende a identidade estática dos particulares não seja simplesmente perdida, mas possa produzir relações.
A este respeito, é possível dizer que podemos compreender a totalidade, como categoria dialética, de duas formas. No primeiro caso, ela aparece como estrutura fechada onde todas suas relações são necessárias pois previamente determinadas no interior de um sistema meta-estável. Neste contexto, as relações de necessidade tendem a ser profundamente deterministas, como podemos encontrar, por exemplo, em Lukàcs com suas afirmações como:
Ao se relacionar a consciência com a totalidade da sociedade, torna-se possível reconhecer os pensamentos e os sentimentos que os homens teriam tido numa determinada situação da sua vida, se tivessem sido capazes de compreender perfeitamente essa situação e os interesses dela decorrentes, tanto em relação à ação imediata, quanto em relação à estrutura de toda a sociedade conforme esses interesses22.
Lukàcs não poderia ser mais claro: a atualização da totalidade como chave explicativa dos fenômenos permitiria a dedução da figura necessária dos particulares, caso estes realmente estivessem à altura de sua posição em uma situação dada. No ponto de vista político-social, tal totalidade atualizada pela consciência de classe seria, por sua vez, a condição para a transformação revolucionária da história e para a crítica da falsa consciência imersa em seus particularismos e parcialidades. Provavelmente, leituras inspiradas na totalidade hegeliana como esta são uma das principais razões para o caráter muitas vezes hiperbólico da crítica adorniana a Hegel.
No entanto, podemos encontrar em Hegel uma noção relativamente distinta de totalidade, a saber, algo que deve ser descrito como uma processualidade em contínua reordenação de séries de elementos anteriormente postos em relação. Neste caso, as relações entre os elementos e momentos continuam necessárias, mas tal necessidade não obedece a uma lógica determinista, e sim a um processo de transfiguração da contingência em necessidade. Tal transfiguração exige pensar a totalidade como um sistema aberto ao desequilíbrio periódico, pois a integração contínua de novos elementos inicialmente experimentados como contingentes e indeterminados reconfigura o sentido dos demais. A negação determinada não aparece assim apenas como passagem de um conteúdo a outro que visaria mostrar o caráter limitado dos momentos parciais da experiência. Ela é principalmente a reconfiguração posterior de conteúdos já postos tomados como conjunto. O movimento que a negação determinada produz é um movimento de mutação para frente, mas também para trás. Adorno insiste neste ponto ao afirmar que aquilo que Hegel denomina como síntese: “não é apenas a qualidade emergente da negação determinada e simplesmente nova, mas o retorno do negado; a progressão dialética é sempre também um recurso àquilo que se tornou vítima do conceito progressivo: o progresso na concreção do conceito é a sua autocorreção”23.
Se quisermos, podemos afirmar que um belo exemplo deste movimento é a maneira com que Hegel lembra que o Espírito pode “desfazer o acontecido” (ungeschehen machen kann24) reabsorvendo o fato em uma nova significação. É só em uma totalidade pensada como processualidade contínua que o acontecido pode ser desfeito e que as feridas do Espírito podem ser curadas sem deixar cicatrizes25. Neste ponto, é difícil não concordar com Lebrun, para quem: “Se a História progride é para olha para trás; se é progressão de uma linha de sentido é por retrospecção (...) a ‘Necessidade-Providência’ hegeliana é tão pouco autoritária que mais parece aprender, com o curso do mundo, o que eram os seus desígnios”26.
Assim, a totalidade não pode ser definida aqui como o que permite a compreensão semântica de todos os elementos que ela subsume (como está pressuposto na citação acima de Lukacs), mas como a perspectiva que permite a compreensão sintática do movimento de reabsorção contínua do que inicialmente apareceu como indeterminado e contingente. Pois há, no interior mesmo da ontologia hegeliana, um risco de indeterminação que sempre devemos inicialmente assumir para poder após conjurar27.
