Historiador e mercado de trabalho
O Bacharel em História está habilitado para prestar serviços em instituições públicas e privadas - arquivos, museus, centros de memória e documentação e outros - voltados à preservação do patrimônio histórico; consultoria a profissionais da área de comunicação; prestação de serviços de pesquisa e avaliação na área de políticas públicas.
Dadas suas características, esta profissão exige boa capacidade de comunicação oral e escrita. Paciência, capacidade de ouvir pessoas de diferentes origens e para aceitar diferentes opiniões, perspectivas, e ainda, ter bons conhecimentos de línguas, facilita o diálogo e a interpretação de textos estrangeiros.
Em museus e centros de memória, o profissional pode trabalhar em catalogação e arquivo de documentos e peças de acervo, Inventário de patrimônio e acervo, Trabalhos de pesquisa, Cenários, Correção e produção de livros didáticos, Restauração (com curso específico).
Ter diploma de bacharelado em História é a exigência para atuar na profissão. O salário varia em média entre R$2 mil e R$15 mil.
Função social do historiador
Utilizando documentos e dados, o historiador dedica-se à compreensão do contexto, à interpretação e análise do passado de indivíduos, grupos, movimentos sociais, instituições, regiões, países em diversas áreas – cultura, arte, economia, política, entre outras. Atua no desenvolvimento de pesquisa, na produção e difusão do conhecimento histórico, tomando como referência as várias dimensões dos sujeitos ao longo da história e os parâmetros de cada época, sob as diferentes concepções teóricas e metodológicas. Busca compreender as relações estabelecidas entre os homens nos diferentes tempos e lugares, aproximando e analisando diferentes culturas, o que lhe permite situar, de maneira objetiva, os processos históricos que conduziram a formação de sua própria sociedade. Cabe à ele, o registro, restauro, e documentação do patrimônio histórico e cultural.
“Muito temos falado sobre a função social do historiador, o repensar do fazer histórico, a neutralidade da pesquisa e escrita histórica, a subjetividade, a aplicabilidade das nossas pesquisas na sociedade, a relação entre academia e sociedade, mas agora pretendemos retratar...” (OPSIS, 2008)
O Estado e as Instituições Acadêmicas ainda apresentam uma postura resistente e relutam em permitir que o historiador aproxime-se de seu objeto de estudo por tornar-se militante em sua pesquisa. Uma vez que o historiador produz seu trabalho a partir do presente, das preocupações de sua situação social, fazendo de sua fala um discurso no qual grande parte de suas posições políticas, ideológicas e sociais está presente, sejam elas para toda a sociedade ou para um determinado grupo.
O historiador está tentando modificar os conflitos de seu ofício e alterar a história baseada em “grandes fatos”, “grandes heróis”, uma história diplomática e dos grandes feitos, em que a função do historiador nada mais era do que relatar os fatos, tal qual pretensamente, tinham acontecido. Muitos governos tentaram construir uma História conservadora a partir de alguns eventos, com sujeitos considerados grandiosos como Alexandre, o Grande, Carlos Magno, Júlio César, Cleópatra, Dom Pedro I e II, dentre outros. A Escola e Annales, que foi primordial para ocorrência de uma ruptura desta concepção tradicional, uma vez que rompeu com a tradição, concebendo o papel primordial da História, como um instrumento de enriquecimento e colaboração de formação de uma sociedade consciente de seus problemas, participativa e com capacidade de interferir em seu meio.
Fontes, antes tidas como provas objetivas e absolutas dos fatos, passam a ser objetos de interpretação subjetiva do pesquisador. A possibilidade de uma história genérica mostra-se cada vez mais distante do horizonte dos historiadores. Novos temas entram em estudo a partir dessas mudanças; além de abordar uma história coletiva, a História passou a trabalhar com recortes do todo social.
Compreendemos que muito ainda há para se fazer sobre o que se produz nas intuições de ensino superior, entre o que se produz e o que se aplica na sociedade. Há necessidade de maior interação entre as pesquisas históricas e sua aplicabilidade. O modelo tradicional da história, eurocêntrico, divide o tempo com o parâmetro de uma parte da Europa Ocidental, e atualmente ainda há poucas pesquisas sobre temas e regiões mais amplas como História africana, diásporas negras, e civilizações Pré-Colombianas. Estes estudos ainda se apresentam genéricos e difíceis, embora vêm aumentando nos últimos anos.
No Brasil, durante o governo Lula (2002 – 2010) foi constituída uma lei que exige o ensino de História Africana em todas as graduações de história, e na grade curricular do ensino básico, a fim de apontar conflitos sociais a partir da história do negro, combater a discriminação racial, emancipar as futuras gerações de alunos e desenvolver a identidade do sujeito.
Hoje, os países ocidentais, em sua maioria, admitem a interpretação dos documentos e o diálogo com as fontes históricas se tornaram imprescindíveis para o ofício do historiador; a aceitação da subjetividade na escrita histórica nos permite diversas versões do real, admitindo que na História não há uma versão pronta e acabada, mas algo que pode vir a ser superado, de acordo com o olhar de quem escreve e questiona tal fato. Para Moradiellos, sua tarefa consiste:
“Na construção de um passado histórico em forma de relato narrativo e a partir de relíquias, das provas e fontes informativas legadas ao passado, mediante um método interpretativo no qual é impossível eliminar do próprio sujeito seu conhecimento. E, a partir disso, torna-se impossível o historiador renunciar, em sua interpretação, seu sistema de valores filosóficos e ideológicos, sua experiência política e social e sua formação cultural.” (MORADIELLOS, 2005).
Segundo à crítica feita por Fontana, há um distanciamento existente entre a academia e sua real função social.
“A academia, que, na maioria das vezes, produz para si mesma; são pesquisas relevantes, mas que ficam confinadas na mesma sem atingir o seu objetivo real, a tentativa de melhorar a sociedade” (FONTANA, 2004, p. 472).
IMAGEM 4: Charge política de LATUFF, 2010.
Nas últimas décadas, os novos recursos tecnológicos revolucionaram as relações, a forma de pesquisar e publicar artigos científicos. Muitos vestígio, como textos e fotos, podem ser usados como documentação, porém, encontra-se dificuldade de preservar estes arquivos, que acabam sendo usados de forma indevida ou perdidos.
“O historiador na atualidade não pode esquecer que vive e atua profissionalmente na chamada “Era da Informação”, na qual, as tecnologias da informação e da comunicação tem presença marcante. Os novos suportes documentais, com os quais terá de lidar, exigem conhecimento, métodos e meios de produção, utilização e conservação físicas especiais. São fatores novos sobre os profissionais passam agora a serem instruídos e treinados, não obstante correrem o risco de , em virtude do vertiginoso crescimento das possibilidades da eletrônica nas áreas documentais, nunca conseguirem abarcar a plenitude destes conhecimentos tão mutantes e dependentes de equipamentos tão rapidamente tomados como obsoletos.” (LIBERRALLI BELLOTTO, HELOÍSA)
O historiador terá de lidar cada vez mais com as novas mídias e documentos, e saber utilizá-las para criação e catalogação de acervos, como um bem coletivo.
A subjetividade permite pesquisas sobre mais temas, entretanto, a partir do momento que o historiador pesquisa sobre sua óptica, deve buscar ser imparcial. A história, pode ser algo universalmente apreendido, por mais deficiente que seja a capacidade humana de registrá-la, e algum tipo de cronologia, ainda que irreconhecível ou imprecisa segundo nossos critérios, pode ser uma mensuração necessária disso. Teoricamente, o passado ( toda e qualquer coisa que aconteceu até hoje), constitui a história. Uma boa parte dele não é da competência dos historiadores, mas uma grande parte o é.
Ao lermos um artigo ou livro de História, estaremos analisando a interpretação dada por um historiador ao fato. A subjetividade permite pesquisas sobre temas diversos, e na medida em que compilam e constituem a memória coletiva do passado, a sociedade contemporânea confia a esses profissionais este legado, delegando-lhes uma função social ativa, o que tem lados positivos e negativos. Positivo, preservar ou conhecer o patrimônio de uma coletividade, possibilitando a criação de sujeitos críticos; Negativo, quando a história é usada como “verdade”, sendo que há várias verdades, e cada fato pode ser recriado sobre diversos olhares. Um historiador marxista, certamente terá uma visão sobre a sociedade diferente de um liberal clássico, por exemplo.
IMAGEM 5: Manifestação contra a censura imposta durante o regime militar no Brasil.
Durante o segundo regime militar no Brasil (1964 - 1985), visto que primeiro ocorreu durante o Estado Novo, à censura foi extremamente presente na sociedade, tendo pessoas pró e contra. E muitos professores de História durante este período, colaboravam com uma formação social, dependente, deturpando fatos. Mesmo que existam muitos registros sobre este período e a escravidão no Brasil, nunca se saberá qual foi a real história do período. Muitos historiadores (bacharéis) militaram contra, outros sumiam com vestígios e documentos que de alguma forma ameaçassem ao regime. Como no século das luzes, na França, onde a Escola e os historiadores eram instruídos pelo governo e o período Nazista da Alemanha. O totalitarismo alemão contava com funcionários do Estado, com o objetivo de incentivar o patriotismo e justificar seus atos segregacionistas através de uma História nacional, e através desta, podia-se manipular o presente. Evidentemente, não eram todos os profissionais que tinham esta postura consciente, mas como cidadão, o historiador pode ser alienado e ou/ desconstruir um fato.
Podem ser usados como exemplos, a nossa visão pré-selecionada sobre os antigos Gregos e Espartanos, ou até mesmo quando dizemos que a cultura das religiões afro brasileiras (entre elas, Candomblé, Tambor de Mina, Xangô do Nordeste, Batuque do Sul, Vodum, Catimbó, Umbanda) representam a África como um todo. Evidentemente, que há semelhanças entre estes cultos nos Brasil e outros relatados em pequenas regiões da África Ocidental, durante o início do século XX, mas, estes, foram reinventados no Brasil. A capoeira, luta identificada no senso comum, como de origem africana, na verdade foi criada no Brasil. Não acharam em África seu registro, mas, foram encontradas semelhanças entre a capoeira e alguns movimentos corporais de rituais indígenas do Brasil. Outro exemplo, de algo inventado pode ser a “feijoada”, tão famoso prato, apreciado por parte dos brasileiros, estes inconscientemente dizem ou talvez já tenham ouvido falar que a origem deste prato surgiu entre os escravos que juntavam os “restos”ou pedaços de carnes, consideradas menos nobres à águas e feijões, em um ensopado, entretanto, sabe-se hoje que os escravos em geral, ingeriam em média, menos de 1.000 kcal ao dia, e não era disponibilizada, carne (item caro) em quantidade a ponto de se fazer um ensopado deste porte. Também, na tão conhecida ideia do senso comum de que os indígenas brasileiros eram “preguiçosos”. São exemplos do “apagão” histórico ou de fatos atenuados, propriamente dito, não produzidos somente pelos historiadores, mas por todo o sistema, pois não existe neutralidade na ciência, ao fazê-la, o cientista carrega consigo sua ideologia e suas concepções de mundo.
Sobre o lugar do historiador dentro da prática histórica, da função social da sua escrita e da pesquisa histórica, como há uma inserção do pesquisador nas mesmas e quanto sua realidade influi diretamente sobre todos esses pontos. Edward H. Carr, em sua obra critica a visão tradicional sobre a função do historiador.
“Os historiadores não são canais neutros através dos quais a verdade sobre o passado é transferida dos documentos para o leitor, mas, antes, indivíduos que deixam as suas idéias e convicções pessoais nas suas obras, que devem ser lidas com esse fato em mente. Os historiadores não se limitam a papaguear um discurso social mais amplo, e sim possuem também as suas próprias vozes individuais que colaboram e fazem parte do seu ofício...”
Segundo Duby, ainda há muitos acontecimentos históricos que são manipulados a serviço de um governo ou uma ideologia, por isso, a importância de conhecer quem escreveu um documento e indagar sobre qual o contexto histórico do autor.
A História, assim como toda ciência é controversa. Se por um lado, pôde ao longo da humanidade, ser usada para manipular comportamentos sociais, tem imensa importância quando usada para desconstruir o senso comum, desenvolver a criticidade, a memória e identidades coletivas, documentar a variedade cultural e as transformações da cultura.
O historiador está rompendo barreiras existentes e adquirindo seus devidos direitos e formação, pois no Brasil, esta profissão ainda não foi regulamentada. A sociedade usufrui de muitos recursos e descobertas de historiadores, como material didáticos, pesquisas acadêmicas, datações, restaurações, preservações de patrimônios e estes, até hoje se veem desvalorizados, e com pouco espaço no meio público. Tendo que recorrer, em sua maioria às organizações do setor privado. Vem construindo um novo período, no qual adquire real reconhecimento da sociedade em que vive, com novas abordagens e interpretações, rumo à consciência coletiva.
Referências bibliográficas
Filosofia- Ano VII – Edição 97 – Agosto/2014
BORGES, V. P. O que é história. São Paulo: Brasiliense, 1986.
MORADIELLOS, Enrique. Qué es la história?. In: ______. El Ofício de historiado. Madrid: Siglo XXI, 2005. p. 3-31.
REIS. José Carlos. História &teoria: historicismo, modernidade,
temporalidade e verdade. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2003.
www.klepsidra.net
www.historiaeestudoaqui.blogspot.com.br
www.ultimosegundo.ig.com.br
www.google.com.
LATUFF, 2010
LIBERRALLI BELLOTTO, HELOÍSA
